O que esperar de uma terapia orientada pela redução de riscos e danos?
O cuidado com foco na pessoa e não na substância
Durante muito tempo, os tratamentos voltados para pessoas que fazem uso problemático de álcool e outras drogas foram organizados a partir da necessidade de interromper o consumo. A abstinência era frequentemente apresentada como objetivo principal e utilizada como referência para avaliar o sucesso ou o fracasso do tratamento.
Uma mesma substância pode ocupar lugares completamente diferentes na vida de duas pessoas. Enquanto uma estabelece uma relação eventual, sem prejuízos significativos, outra pode desenvolver um padrão de consumo que compromete seus vínculos, sua saúde e diferentes questões da vida cotidiana.
Por isso, entendo que o trabalho clínico não deve se limitar à quantidade consumida ou à frequência do uso, apesar da necessidade de levar esses dois aspectos em consideração. É necessário compreender o significado que esse hábito assume na história de cada indivíduo e, principalmente, quais são as circunstâncias que contribuem para a manutenção desse comportamento.
Essa perspectiva também modifica a posição ocupada pelo profissional. O psicólogo não está ali para exercer o controle sobre a vida do paciente, determinar suas escolhas ou estabelecer regras de comportamento. Seu trabalho consiste em oferecer condições para que a pessoa possa refletir sobre aquilo que vive, reconhecer os riscos envolvidos em suas decisões e construir outras possibilidades de relação consigo mesma.
A autonomia, nesse sentido, não significa simplesmente estimular que cada pessoa faça o que quiser. Ela envolve a construção de recursos para que suas escolhas sejam cada vez mais conscientes e menos determinadas por comportamentos que produzem sofrimento.
A relação entre a substância, a pessoa e o contexto
Uma das principais contribuições para a compreensão do uso de drogas está no pensamento do psiquiatra francês Claude Olievenstein, que propôs compreender o uso a partir do encontro entre três elementos: pessoa, substância e contexto sócio-cultural.
Essa perspectiva também se aproxima das contribuições de Norman Zinberg, que destacou a importância da interação entre a droga, as características individuais e o ambiente em que ocorre o consumo.
Essas formulações ajudam a compreender por que não é possível explicar uma relação problemática com substâncias considerando apenas seus efeitos farmacológicos.
É necessário olhar para a história de vida da pessoa, seus vínculos afetivos, suas experiências familiares, suas condições sociais, além de tentar compreender a maneira como ela aprendeu a lidar com situações de sofrimento.
Em alguns casos, o uso pode estar relacionado à tentativa de aliviar sentimentos de angústia, solidão ou insegurança. Já em outros, pode representar uma maneira de buscar empoderamento, prazer, reconhecimento ou até mesmo de suportar determinadas situações da vida cotidiana. Além disso, o uso de drogas também pode estar relacionado à curiosidade, à sociabilidade, à cultura e ao prazer.
O que interessa à clínica é compreender quando e de que maneira essa relação passa a produzir prejuízos ou sofrimento, sem desconsiderar a importância que a substância pode ter adquirido para aquela pessoa.
O que podemos esperar dessa abordagem?
Na clínica orientada pela redução de riscos e danos, isso significa oferecer um espaço em que a pessoa possa falar sobre sua relação com as substâncias psicoativas. Também é um espaço que compreende que comportamentos compulsivos não podem ser reduzidos a uma questão de falta de disciplina, fraqueza ou incapacidade de fazer escolhas.
O sofrimento psíquico é atravessado por diferentes fatores e exige uma compreensão que considere tanto a singularidade do indivíduo quanto às condições sociais em que ele vive. Ao longo da minha trajetória como redutor de danos, compreendi que em muitos momentos da vida, nem sempre aquilo que consideramos como ideal é o que conseguimos colocar em prática.
Por isso, entendo que o trabalho do psicólogo não é trabalhar com um modelo padrão, mas oferecer alternativas para que cada indivíduo possa reconhecer suas dificuldades, compreender suas escolhas e construir as suas possibilidades.
ReferênciasOLIEVENSTEIN, C. A clínica do toxicômano: a falta da falta. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
ZINBERG, N. Drug, Set, and Setting: The Basis for Controlled Intoxicant Use. New Haven: Yale University Press, 1984.