Sempre bolamos cuidado e vamos continuar bolando
Do cinto de segurança à camisinha, vivemos bolando estratégias de cuidado. Por que essa lógica vira tabu quando o assunto é drogas?
Por que parar de bolar? A Redução de Danos que já vivemos todos os dias
Algumas pessoas tem medo da Redução de Danos, mas não percebem o quanto exercemos a Redução de Danos em nossas vidas, viver é o maior risco de você ter algum dano na sua vida, assim que você nasce você já tem risco de danos em sua integridade, redução de danos já está presente em diferentes campos da vida e, na maioria deles, é aceita com naturalidade.
- Utilizamos cintos de segurança porque sabemos que acidentes podem acontecer;
- distribuímos preservativos porque reconhecemos que as pessoas terão relações sexuais;
- desenvolvemos vacinas, equipamentos de proteção e medicamentos porque viver envolve riscos.
Em nenhuma dessas situações, reduzir danos significa incentivar o perigo. Significa reconhecer a realidade e construir formas de torná-la menos arriscada.
O trânsito, a seta e a conversa difícil
Neste contexto, fazendo uma analogia com o trânsito, o carro é uma máquina mortífera que pode ir de 0 a 100 km/h em um piscar de olhos, estar no trânsito é um risco potencial de sofrer algum dano, não só por você mas pelo os outros também, e sabendo disso nós tentamos bolar estratégias de reduzir os danos,
- você pode bater e capotar, por isso usamos o cinto de segurança,
- você pode passar por cima do outro, por isso precisamos ligar a seta,
estamos a procura de reduzir os danos o tempo todo, até quando pensamos em ter uma conversa difícil com alguém, em que você sabe que vai magoar a pessoa, você bola milhões de estratégias de como ter uma conversa boa, uma comunicação não violenta, um “feedback sanduíche”, a grande verdade é que nós estamos o tempo todo bolando estratégias de redução de danos, nós nunca deixamos de bolar e por que parar de bolar?
Sexo, SUS e a regulação humana
O sexo é uma grande exposição, trocam-se fluídos, bactérias, energias, todos nós sabemos disso, mas distribuímos camisinhas no SUS, bolamos a PREP, temos toda uma política de contenção e controle dos riscos, para reduzir os danos que esta atitude pode causar. Não existe política de NÃO AO SEXO, é algo natural, e sabemos que todos entrarão em contato com ele na vida em algum momento. Assim como as drogas, tentar se regular constantemente é algo natural e milenar do ser humano, estou falando de drogas lícitas, ilícitas, álcool, neosaldina, psicofármacos, pré-treinos, bombas de hormônios, suplementos, entre outras substâncias químicas que estão aí para alterar o nosso estado mental.
Por que com as drogas é diferente?
Entretanto, quando essa mesma lógica é aplicada ao uso de drogas, surgem resistência, desconfiança e preconceito. Isso acontece porque o consumo de determinadas substâncias não é compreendido apenas como uma questão de saúde: ele foi historicamente transformado em problema moral, policial e criminal. A pessoa que usa drogas, sobretudo quando se trata de uma substância ilícita, costuma ser vista como irresponsável, perigosa ou incapaz de tomar decisões. Em vez de receber cuidado, frequentemente recebe julgamento.
O proibicionismo e o óbvio
Esse preconceito também está relacionado à ideia de que a abstinência seria o único resultado legítimo de um tratamento, o proibicionismo é tão careta, até cansa a gente falar mas é extremamente necessário, falar o que? Falar o óbvio! Que ele está situado na história, em um contexto social, em uma construção financeira e política e é a maior política racista, misógina e fascista que temos em nosso país, bolamos estratégias de redução de danos para tudo, mas para falar do uso de drogas só é associado à criminalidade, à falta de caráter ou ao fracasso individual, grandes “desculpas” que constroem o imaginário cultural para haver um controle de poder e de forte discriminação e desiguldades sociais e raciais.
Afinal, o que é Redução de Danos?
Redução de danos é ampliar possibilidades de cuidado, compreender que uma pessoa pode procurar um serviço de saúde sem querer interromper o uso, é cuidado, é prevenção, é bolar estratégias que sejam congruentes com a realidade da pessoa, com o que ela está disposta a sustentar, e o mais importante, com o que faz sentido naquele momento.
Uma abordagem de RD pode envolver estratégias bastante concretas, como
- prevenção de infecções,
- orientação sobre formas de uso menos arriscadas,
- acesso a serviços de saúde,
- distribuição de insumos e
- construção de vínculos com a rede de cuidado.
Mas sua importância não se limita às estratégias técnicas. Há também uma transformação na maneira de olhar para quem usa drogas.
A pessoa no centro
A RD incomoda porque retira o julgamento moral do centro e coloca ali a pessoa concreta. Em vez de perguntar apenas “como fazê-la parar?”, pergunta:
“do que ela precisa para continuar viva, preservar sua saúde, recuperar vínculos e ampliar sua autonomia?”.
Essa mudança parece simples, mas desafia uma política construída sobre o medo, a punição e a exclusão.
Reduzir danos não é desistir de ninguém
Se aceitamos reduzir danos em tantos campos da vida, por que deveríamos abandonar essa lógica justamente diante das pessoas que usam drogas? Talvez o verdadeiro problema não esteja na redução de danos, mas na dificuldade social de reconhecer essas pessoas como sujeitos de direitos, capazes de participar das decisões sobre o próprio cuidado. Reduzir danos não é desistir de ninguém. É recusar que a abstinência seja uma condição para que alguém possa ser escutado, respeitado e cuidado.