O dia em que parar de se esconder vira o começo do cuidado
Tem uma cena que se repete nos nossos comentários, nas mensagens que chegam, nas primeiras sessões relatadas pelos profissionais da rede: a pessoa levou anos convivendo com o próprio uso — e meses ou anos a mais escondendo esse uso de todo mundo que poderia ajudar.
Escondeu do médico, porque uma vez respondeu com sinceridade na ficha e viu a expressão do outro lado mudar. Escondeu da terapia, porque não sabia se aquilo caberia ali. Escondeu da família, porque conhece o roteiro da reação. Escondeu até de si, naquele jeito específico de quem nunca conta os próprios dias de uso para não ter que saber o número.
Este texto é sobre esse esconderijo — quem o constrói, quanto ele custa e o que acontece quando ele deixa de ser necessário.
Quem constrói o esconderijo?
Não é a pessoa que usa. É o mundo em volta.
O esconderijo é construído por cada ficha de anamnese que separa "álcool" e "cigarro" de "drogas", como se fossem categorias morais e não farmacológicas. Por cada profissional de saúde que reage ao relato de uso com a sobrancelha antes da pergunta — um padrão que a pesquisa conhece bem: a revisão sistemática de van Boekel e colaboradores (2013) documentou que atitudes negativas de profissionais diante de pacientes que usam substâncias são comuns e produzem menos empatia, menos engajamento e cuidado pior. Por cada lei que, durante décadas, transformou a substância no bolso em antecedente criminal. Por cada piada de família sobre "o problema" de alguém que nem estava na sala para se defender.
Ninguém decide esconder do nada. Esconder é uma resposta racional a um ambiente que pune a sinceridade.
Quanto custa o segredo?
Custa, antes de tudo, tempo — o recurso que o cuidado menos pode desperdiçar.
Um estudo nacional recente sobre famílias brasileiras de pessoas que usam substâncias (Bortolon et al., 2025) encontrou que dois terços adiaram a busca por ajuda — por cerca de três anos, em média. No mundo, a UNODC estima que apenas 1 em cada 12 pessoas com transtorno por uso de drogas recebeu tratamento em 2023 — e, entre mulheres, a proporção é de cerca de 1 em 18 (dado de 2022). Atrás de cada um desses números existe, entre outras barreiras, um segredo sendo administrado: o cálculo diário de quem pode saber, quanto pode saber, o que precisa ser editado antes de cada consulta.
E custa qualidade de cuidado. Um tratamento que não sabe do uso trabalha com o mapa errado: o médico prescreve sem conhecer as interações, a terapia analisa uma insônia sem sua variável principal, o check-up interpreta exames com uma peça faltando. O segredo não protege a pessoa do julgamento — protege o julgamento de ser confrontado, e desprotege todo o resto.
O que acontece quando a conversa começa?
Quase nunca o que o medo previa.
Não estamos romantizando: às vezes a reação ruim acontece — o profissional que julga existe, a família que explode existe, e é por isso que escolher para quem contar é parte da estratégia, não covardia. Contar primeiro para quem tem mais chance de sustentar a conversa — um profissional alinhado à redução de danos, um amigo que já demonstrou escuta, um serviço que trabalha sem exigir abstinência — não é fazer por partes; é fazer direito.
Mas quando a conversa acontece no lugar certo, o que os profissionais da nossa rede descrevem é quase sempre a mesma sequência: alívio físico primeiro — ombros que descem, respiração que muda —, depois uma enxurrada de informação que estava represada, e então a descoberta de que dá para pensar sobre o próprio uso junto com alguém, em vez de sozinho às três da manhã. O uso não muda nesse dia. O que muda é que ele deixa de ser um assunto clandestino e vira um assunto trabalhável.
É a diferença entre carregar uma coisa escondida e colocar a coisa na mesa. Escondida, ela só pode ser negada ou temida. Na mesa, ela pode ser olhada, medida, entendida — e, se você quiser, mudada.
Por onde se começa a sair do esconderijo?
Pelo degrau mais baixo da escada, como tudo em redução de danos:
Conte para você primeiro. Registrar o próprio uso, sem plateia — num diário, num app, num papel — já quebra o segredo mais antigo, que é o que a gente guarda de si.
Escolha uma pessoa. Uma. Com histórico de escuta. A frase pode ser simples: "tem uma coisa que eu nunca falo pra ninguém e queria conseguir falar".
Filtre o profissional antes. Pergunte na primeira conversa como a pessoa trabalha com quem usa e não pretende parar. A resposta diz tudo.
Não confunda sinceridade com confissão. Você não deve um relatório a ninguém. Contar é um direito que se exerce por escolha, no seu tempo, na sua ordem.
A gente existe — página, blog e app — porque acredita que ninguém deveria precisar chegar escondendo uma parte da própria história para receber cuidado. No Dichava.app, o diário é seu, os dados são seus, e os profissionais da rede foram escolhidos justamente por não confundirem cuidado com julgamento.
O esconderijo teve função: ele te protegeu quando não havia lugar seguro. Sair dele não é um salto — é a construção, tijolo por tijolo, de lugares onde ele não seja mais necessário.
Referências
van Boekel, L. C. et al. Stigma among health professionals towards patients with substance use disorders and its consequences for healthcare delivery: systematic review. Drug and Alcohol Dependence, v. 131, p. 23–35, 2013.
Bortolon, C. B. et al. Help-seeking behavior of family members for their relatives with substance use problems: a national cross-sectional study in Brazil. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 22, n. 6, 968, 2025.
UNODC. World Drug Report 2025. Viena, 2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 1.028, de 1º de julho de 2005 (informação e acolhimento como medidas de saúde, sem exigência de abstinência).