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Clínica e cuidado

Como escolher um profissional para falar sobre o seu uso de drogas

Escolher um profissional de saúde mental já é difícil por si só. Quando existe uso de drogas na história, entra uma camada extra de cálculo: será que eu vou poder falar sobre isso?

Muita gente resolve esse cálculo da pior forma possível — omitindo. Vai ao consultório, faz terapia por meses e nunca menciona uma parte relevante da própria rotina, com medo da reação. O resultado é um tratamento que trabalha com informação incompleta.

Dá para fazer diferente. Mas exige saber o que olhar antes de marcar.

1. Confira o registro profissional

Esse é o primeiro filtro, e é objetivo.

Psicólogas e psicólogos no Brasil têm registro no Conselho Regional de Psicologia (CRP), com número de inscrição que segue o formato região/número — por exemplo, CRP 06/208642. O número é público e pode ser conferido no site do CRP da região ou no cadastro nacional do Conselho Federal de Psicologia. Médicos têm CRM, terapeutas ocupacionais têm CREFITO, assistentes sociais têm CRESS.

Não é burocracia inútil: registro ativo significa que existe um órgão a quem recorrer se algo der errado, e um código de ética que vincula o profissional.

Para atendimento on-line, a regra mudou recentemente na psicologia. A Resolução CFP nº 09/2024, de 18 de julho de 2024, regula a prestação de serviços psicológicos por tecnologias digitais e revogou a exigência de cadastro na plataforma e-Psi (além de revogar as Resoluções CFP nº 11/2018 e nº 04/2020). Hoje, o que se exige é registro ativo no CRP e capacitação para o serviço oferecido, conforme o Código de Ética. A resolução também ampliou o escopo do que pode ser atendido remotamente, incluindo situações antes vedadas, mediante avaliação ética e técnica do profissional.

Ou seja: perguntar "você é cadastrado no e-Psi?" ficou desatualizado. Perguntar "qual seu CRP?" continua valendo.

2. Olhe a abordagem — e o que ela significa na prática

Gestalt-terapia, análise do comportamento aplicada, psicanálise, terapia cognitivo-comportamental, atenção psicossocial: cada abordagem tem uma lógica própria sobre como a mudança acontece.

Você não precisa dominar a diferença entre elas. Mas vale saber que abordagem não é o mesmo que postura sobre drogas. Existe profissional proibicionista em qualquer abordagem, e existe profissional alinhado à redução de danos em qualquer uma delas.

Por isso o item seguinte importa mais que este.

3. Procure alinhamento explícito com redução de danos

É a informação mais previsível de todas e a mais frequentemente ignorada.

Profissionais alinhados à redução de danos costumam dizer isso abertamente — no perfil, na apresentação, na primeira conversa. Quando aparece "redução de danos" entre as áreas de atuação, você está diante de alguém que já decidiu que o objetivo do processo é seu, não dele.

Na prática, alinhamento à redução de danos significa:

  • Abstinência não é condição de entrada. Pode ser sua meta, se você quiser. Não é pedágio.

  • A meta é definida por você. Reduzir, pausar, manter, entender o padrão, cuidar de outra coisa completamente.

  • Risco é tratado com informação técnica, não com ameaça.

  • Recaída não rompe o vínculo. Se voltar a usar significa perder o acompanhamento, você vai omitir — e o processo perde a matéria-prima.

Isso, aliás, é o que a política pública brasileira já prevê. A Portaria GM/MS nº 1.028/2005 define as ações de redução de danos como voltadas a quem "não pode, não consegue ou não quer interromper" o consumo, com informação, educação e aconselhamento no centro.

4. Verifique se o recorte que importa para você aparece

Uma rede de cuidado é útil quando permite escolher por afinidade real, não só por disponibilidade de horário.

Vale procurar quem descreve atuação nos temas que fazem parte da sua vida: saúde mental, redução de danos, sexualidade, identidade de gênero, vivência queer, neurodivergências, dependências, automutilação, dependência de jogos, atenção psicossocial. Ver o próprio recorte nomeado no perfil de alguém economiza meses de tradução dentro do consultório.

Isso não é preferência estética. É reduzir o trabalho invisível de explicar quem você é antes de conseguir falar do que você veio falar.

5. Use as primeiras sessões como o que elas são

As primeiras conversas são mão dupla. Você também está avaliando.

Perguntas que funcionam bem logo de início:

  • "Como você trabalha com pessoas que usam drogas e não pretendem parar?"

  • "Se eu voltar a usar durante o processo, o que acontece aqui?"

  • "Você já atendeu pessoas com queixas parecidas com a minha?"

  • "Como você define, com o paciente, o objetivo do trabalho?"

Respostas evasivas, moralizantes ou que devolvam a pergunta como se ela fosse resistência são informação suficiente. Trocar de profissional depois de duas sessões não é fracasso — é triagem.

6. Considere online e presencial pelo que cada um oferece

Atendimento on-line resolve problemas concretos: distância, cidade sem oferta de profissionais alinhados a essa perspectiva, agenda inviável, dificuldade de deslocamento, e a possibilidade de escolher alguém em outro estado.

Presencial oferece outras coisas: presença física, separação clara entre o espaço da terapia e o espaço da casa, menos interferência técnica.

Não existe superioridade automática entre os dois. Existe o que funciona para a sua rotina, e a resolução do CFP hoje reconhece ambos como formas legítimas de prestação de serviço.

Por que a escolha importa tanto

Porque a alternativa mais comum não é escolher mal — é não procurar.

O World Drug Report 2025, da UNODC, estima que apenas 1 em cada 12 pessoas com transtorno por uso de drogas recebeu alguma forma de tratamento em 2023 (1 em 7 entre homens, 1 em 18 entre mulheres). E a revisão sistemática de van Boekel e colaboradores, publicada na Drug and Alcohol Dependence em 2013, documentou que atitudes negativas de profissionais de saúde em relação a pessoas com transtornos por uso de substâncias são comuns e estão associadas a menor engajamento, menos empatia e cuidado subótimo.

Entre não procurar ninguém e procurar alguém que julgue, tem um caminho do meio: procurar com critério.

Você escolhe por quem você se identifica, pela abordagem e pelo que fizer sentido para você. Nada é obrigatório, e você pode parar quando quiser.

Cuidado sem julgamento, do seu jeito.

Referências

  • CFP. Resolução CFP nº 09/2024, de 18 de julho de 2024 — prestação de serviços psicológicos por Tecnologias Digitais da Informação e da Comunicação. Revoga as Resoluções CFP nº 11/2018 e nº 04/2020 e a exigência de cadastro no e-Psi.

  • BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 1.028, de 1º de julho de 2005.

  • UNODC. World Drug Report 2025. Viena, 2025.

  • van Boekel, L. C. et al. Stigma among health professionals towards patients with substance use disorders and its consequences for healthcare delivery: systematic review. Drug and Alcohol Dependence, v. 131, p. 23–35, 2013.

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